O Desaparecido – Av. Borges

- O Desaparecido - junto ao Viaduto da Borges

O  Desaparecido,

                    –   Rubem Braga

Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagem para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me ao espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos tímido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desa-parecido que a família procura em vão .

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num   canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só  tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

             – Rubem Braga, abril, 1959
‘in’  “200 crônicas escolhidas”

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(Obs: essas imagens são um roubo, só assim são captadas sem a ou as pessoas sentirem ou notarem. Numa fração de segundos ou nalguns minutos (às vezes muitos minutos) esperando uma cena de movimento ou explorando ângulos de uma cena  –  são sempre flagrantes absolutamente espontâneos como num post inicial havia informado – sem estar pensando nalgo, nem pensando num eventual poema que me ocorre ou leio bem depois, nem pra “montar” ilustração, seja do texto, frase ou poema à imagem, ou escrito qualquer. Coincidências, mas que só eu sei que são assim ).

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2 Comentários

  1. ana said,

    9 de julho de 2012 às 7:42 AM

    Adorei o casamento da foto com a belíssima crônica. Ficou lindo.


Grato pela visita. Se apreciou, por favor, divulgue! Humberto.

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